sexta-feira, julho 28, 2017

Cacilda e Deolinda


Minha amiga Luciana Praxedes, que tem o dom da escrita e já escreveu algumas vezes aqui, me "emprestou" mais um dos seus textos inspirados e "bordados" com muito amor e carinho para as suas duas avós, para eu publicar aqui no Consulta. Como todos os textos muito bem tramados e urdidos, o dela, embora fale de pessoas muito particulares, tem a capacidade de alcançar a universalidade das avós deste planeta Terra.

Parabéns, Lu! E obrigada pela honra de compartilhá-lo aqui no meu espaço internético.

ELAS

No final de junho comecei um texto para tentar traduzir em palavras a saudade que sinto, sentia e sempre sentirei dela, da minha avó Cacilda. A emoção não permitiu que eu fosse capaz de concluir este desabafo, mas eis que a vida, com suas esquinas e travessuras, praticamente me obriga a rascunhar algo. Para deixar o coração mais leve ou apenas para repetir ao universo o que ele já sabe, divido com vocês meu sentimento.

Cacilda

Acho que sempre será impossível falar, pensar ou escrever sobre a senhora sem deixar que algumas lágrimas me façam companhia. O tempo passou, já são quase 30 anos que a senhora virou luz e foi brilhar do lado de lá, mas ainda assim, vira e mexe, algum cisco entra no olho. 

A gente se fala com frequência, mas rolou muita coisa por aqui enquanto a senhora virou encantada. Eu cresci (literalmente!), estudei (bastante, como a senhora sempre previu), me apaixonei, desapaixonei, construí relações, fiz amigos, viajei. E lembra aquele carro cor-de-rosa que seria nosso? Eu comprei um carro! Mas não tinha cor-de-rosa. Era preto e se chamava Vulcão. E nos nossos quase três anos de relacionamento sério, nem um dia sequer, ao estar dentro dele, deixei de lembrar como seria levá-la para passear por aí. 

A mãe, sua filha querida, está lindona! Continua a figura rara de sempre, dando nó em pingo d´água. A gente ri, chora, conversa, ri de novo, conversa mais um pouco e seguimos assim: companheiras uma da outra. Juntas. Sempre juntas! Se a senhora ainda estivesse por aqui, certeza de que aquele romance histórico, “Os Três Mosqueteiros”, seria reescrito numa versão tropical, feminina, arretada e bem-humorada. 

E como falar de humor sem lembrar da sua gargalhada e do jeito que todo o seu corpinho se balançava sempre que alguém contava um “causo” ou quando a Lucilene, minha irmã e sua outra neta, aprontava das dela?! Se eu fechar os olhos agora, sou capaz de reproduzir em minha mente (ou seria no meu coração?!) o som mágico que emanava da senhora.

Não posso esquecer de contar que estou cuidando deles. Do pai e da mãe. Do jeito que a senhora faria. Mas a senhora acredita que eu tenho fama de chata?! Precisava tê-la aqui para me defender. Eles me chamam de general só porque eu controlo a comilança de doces ou pego no pé quando faltam na academia... Só isso. Mas eu não estou certa, vó?! 

Vó, eu sei que a senhora está sempre comigo. Por isso preciso pedir um favor. A minha outra vó, a Deolinda, lembra-se dela?! Então, ela também virou luz. Acho que será sua vizinha. A senhora cuida dela pra mim? Cuida dela pra gente? Só um lembrete: nunca, em hipótese alguma, pergunte quantos anos ela tem. Isso deixa a dona Deolinda “avexada”. É besteira, eu sei. Ela também sabe. Mas por que criar caso, né? O que importa mesmo é que agora o céu e o universo contam com mais duas estrelas. As estrelinhas mais arretadas que se tem notícia na história das galáxias. Nem posso calcular a bagunça boa que vocês duas irão aprontar. Promete uma coisa? Quando tocar “Cintura Fina”, do Gonzagão, pensa em mim? 

Deolinda

Sabe o par de olhos azuis mais lindos que eu já vi? São os seus, vó. Sei que a sua vida acaba de mudar, mas olha só: vai dar tudo certo. Não tenha medo, não. Já conversei com a vó Cacilda e ela irá cuidar da senhora. Tenha nela uma amiga, alguém para estar ao seu lado quando precisar de um colo quentinho e cheiroso. 

Eu tenho dificuldade com esse negócio de despedida, mas se teve algo bonito no seu desencarne foi perceber que o amor estava lá do seu lado. Amor em forma de filhos, netos, cunhados, noras e amigos. Seus meninos e sua menina estão sofrendo, cada um do seu jeito, mas todos têm a mesma certeza: a vida nunca acabará enquanto houver amor. E teve. E tem tanto amor, vó.

Até agora eu dou risada sozinha ao lembrar a nossa última conversa. Eu, inconformada, querendo entender o motivo de não ter nascido com o seu par de olhos azuis. A senhora achando graça e tentando me consolar. E eis que o pai, todo metido, pergunta se eu, a filha do Zé Vermelho, não sou a que mais parece com o meu avô Chico entre tantos rostos existentes na nossa grande família. A senhora, toda compenetrada, me olha séria para avaliar se a afirmação tem mesmo validade. E me diz: “pois é, parece mesmo com Chico. Até o jeito todo ‘renhenhem’”. Eu devolvo: “mas o que é ‘renhenhem’, vó?”. A senhora esclarece: “você é bagunceira como o Chico, minha filha”. E o coração desta neta só fez explodir de tanto orgulho. Porque percebi nessa frase que ele, o avô que a vida não me permitiu conhecer, iria ajudar a vó Cacilda a cuidar da senhora. Não sei explicar direito, mas tive uma certeza esquisita de que eu e a senhora, de alguma forma, estávamos nos despedindo.

Mas não fique triste, não. Ainda estamos muito emocionados por aqui, é verdade! Mas tudo aconteceu como deveria acontecer. A senhora não precisa olhar para trás: eu, a Jane e meus outros primos e primas cuidaremos da sua prole. Seus meninos e a sua menina ficarão bem, vó. Pode acreditar. Já sinto saudade das suas histórias sobre o sertão e do seu par de olhos azuis. Mas se tem algo que aquece o meu coração é saber que conseguimos construir uma história bonita, delicada, cheia de amor e de risos. Eu nunca levei muito a sério o seu jeitão que muitos consideravam ”seco”. Balela! Sempre soube que dentro da senhora havia muito amor. Um amor que eu conheci. E que permanecerá vivo toda vez que meus olhos avistarem o seu Zé Vermelho ou o seu Neném. O amor vive, vó. Porque a senhora sempre viverá!

5 de agosto:
§  Esta data concentra a saudade de uma vida: há 30 anos a vó Cacilda desencarnava. Foi quando soube que ela virou luz!
§  Daqui a alguns dias a vó Deolinda completará mais um aniversário. Como toda família nordestina que se preze, há controvérsias sobre a idade exata dela. Alguns, como o meu pai, defendem que ela nasceu em 1918, ano que consta em seus documentos e, portanto, faz jus aos seus quase 99 anos. Outros, entretanto, acreditam que sendo ela de 1915, já é uma centenária. Eu, se bem a conheço, aposto que ela ficaria com a primeira versão na qual ela se torna mais “moça”. Vida longa, vó Deolinda! Sua nova aventura acaba de começar! Não se esqueça de mim, tá?! Pois eu jamais esquecerei esse seu par de olhos azuis...


Luciana Praxedes Ventura

Santos, 25 de julho de 2017


(Amanhã, 26 de julho, é celebrado o Dia da Avó. Como eu não acredito em coincidências...)

sexta-feira, abril 21, 2017

Facebook = ego trip

Foto: Keiny Andrade, da revista IstoÉ

No Facebook todo mundo é lindo, sorridente, feliz, saudável, ryco. Isso não me incomodava, até que começaram a pulular na minha timeline as tais listas de 9 verdades e 1 mentira. Esse fenômeno me levou a refletir sobre a era do EGO que estamos vivendo e que está demorando para passar pra trás....

Eu acredito que o mundo precisa urgentemente de pessoas que não olhem apenas para seus próprios (e lindos) umbigos sarados e bronzeados de sol e bem alimentados de produtos veganos, politicamente corretos. É enjoativo ver esse tipo de movimento no mundo, e o Facebook apenas reflete essa neurose coletiva.

O meu blog não deixa de ser uma ego trip, eu sei. Mas sei lá, eu to aqui quietinha no meu canto, pouca gente se dá ao trabalho de ler textos longos e eu encaro o meu blog como aquele meu diário de chavinha dos anos 70.

Não culpo as pessoas individualmente, porque acho todo mundo legal, quem posta e quem não posta esse tipo de coisa. Não se trata de encontrar culpados. Mas de refletir se, de verdade, isso serve para alguma coisa.

Pensando bem, até que serve, vai. Serve para o autoconhecimento. E o autoconhecimento é algo bom, positivo. Tomara mesmo que as pessoas se conheçam e saibam identificar quais escolhas devem fazer vida afora.

E uma escolha importante é: o que vou fazer com o meu tempo?

Eu tenho passado bem menos tempo no Facebook. Tirei o aplicativo do celular, o que foi ótimo. Não ficam aqueles círculos vermelhinhos com números me atrapalhando o tempo todo. Ainda não consegui bani-lo totalmente da minha vida. E nem farei isso. Mas é preciso escolher o que fazer com os minutos que escoam entre os nossos dedos.

Eu, por exemplo, estou dedicando grande parte do meu tempo a dois grandes projetos, atualmente:

1) Coletivo de Conteúdo - minha grande motivação e acredito mesmo ser a razão da minha existência no Planeta, profissionalmente falando. Porque pessoalmente, já deixei meus filhos e minha neta, então, missão cumprida.

2) Projeto Portugal - sim, nós vamos embora. Pode ser seis meses, um ano, dois meses, 10 anos. Vamos experimentar como é morar fora do Brasil. Para quem nunca mudou nem de cidade, é algo importante de se fazer com quase 60.

E dei voltas e voltas e acabei caindo na minha ego trip particular. Veja que bacana ficou a nossa foto e a entrevista que demos para a Revista IstoÉ desta semana: "Descobrimento às avessas".


quinta-feira, abril 06, 2017

Mais um presente aos leitores!


Ganhei mais um belo texto da minha querida amiga Luciana Praxedes. exclusivo aqui para o Consulta. Aproveite!

Sobre o tempo que devemos ter

O relógio é um dos seus amigos mais íntimos. Ela precisa acordar na hora certa, sair de casa com precisão e correr contra o tempo. Ela tem pressa porque a vida é rápida, acelerada. O dia dela, e da maior parte das pessoas que conhece, é formado por etapas e atividades que devem ser concluídas com sucesso num determinado período de tempo.

Mas foi num dia, como outro qualquer, que tanta pressa passou a não ter importância. O tempo parou por alguns minutos quando ela descobriu que a vida é efêmera, quase um sopro. Naquele café, enquanto sua amiga contava sobre o diagnóstico do médico, tudo voltou a ganhar a proporção que merece ter. Nem mais e nem menos. Diante do desconhecido e na tristeza da notícia, o relógio da moça travou no momento presente. Na conversa, na dor da sua amiga.

A amiga ficará bem. Tem que ficar. Não é uma dessas coisas que se entrega para a força do destino ou do acaso. Trata-se simplesmente de uma constatação: sim, a amiga irá superar este desafio com graça, amor e rodeada de pessoas com tempo. Tempo para estar ao lado dela, para mimá-la, para conversar e planejar as férias europeias que há anos tentam coordenar. O tempo, ao contrário da pressa, requer disponibilidade, querer. E elas querem.

Com os acontecimentos recentes, ela se deu conta que perder um amigo ultrapassa o fim da vida como conhecemos. A gente não perde as pessoas para a inevitável morte. Também perdemos amigos vivos. E perder alguém querido quando se tem a chance de revê-lo, de tocá-lo, é imensamente mais triste porque decorre de uma perda consentida. A morte da alma, a morte do vínculo, é ainda mais dolorida porque depende apenas de nós. Depende da nossa inércia, da falta de tempo. Esta dor não se aplica a elas, mas o caso a fez lembrar no tanto de pessoas que foram esquecidas no meio da jornada por conta do relógio e dos compromissos assumidos para toda a eternidade.


Aquele diagnóstico trouxe proporção para a vida. Ela não perdeu ou perderá uma amiga. Ainda terá as conversas madrugadas a dentro, as compras no shopping, o dia de comer tranqueira e um futuro repleto de momentos felizes e infelizes. Juntas, ela e a amiga olharão para trás com a sensação de que estavam ali, uma ao lado da outra. Não cederam a vida ao tempo voraz e implacável. Construíram uma vida que ainda se mantém viva. Dentro e fora delas.

segunda-feira, março 13, 2017

La siesta


Eu estava trabalhando com horário e tudo... Naquela época, o que eu mais desejava, depois do almoço, eram 15 minutinhos pra deitar e descansar. Sria um lugar com redes, natureza, e também salinhas fechadas. Pensei até na logomarca da empresa, que se chamaria La Siesta: um mexicano com chapelão, sentado abraçado nas pernas, cochilando. Mas é claro que não fiz nada de concreto. Tenho várias desculpas... a principal: falta de $$ para investir.

Daí, meu filho me chama hoje pra ver uma matéria que estava passando no Jornal Hoje. Lá estava a minha ideia: uma empresa chamada Cochilo. Bacana!

Hoje à tarde, descobri o blog de uma jornalista que está participando do Coletivo de Conteúdo.

No post que li, havia um vídeo com a fala de uma moça chamada Mel Robbins, no TEDx de São Francisco, sobre "Como parar de se ferrar", que tem a ver com a situação que eu descrevi. Quantas ideias não deixamos passar, por, principalmente, muita preguiça de sair da zona de conforto, né??

Amanhã, como ela recomenda, vou me levantar meia hora mais cedo.

E vamo que vamo.

quinta-feira, março 09, 2017

Sessão da tarde


Quando eu trabalhava fora, uma das minhas maiores fantasias e sonhos de consumo era imaginar como seria bom ver a sessão da tarde em casa, refestelada no sofá. Bom, eu saí do meu último emprego em 2015 e nunca tinha me dado esse direito. Porque ao mesmo tempo que me parecia uma coisa muito legal, que tem a ver com o ócio criativo e coisa e tal, também representava pra mim o símbolo da preguiça, o estereótipo do pior lado daquela aposentadoria vazia e "de pijamas" de antigamente.

Mas hoje (me invejem, pessoas que trabalham com horário) eu me larguei na minha poltrona preferida e vi o clássico dos clássicos "A Lagoa Azul" na sessão da tarde, sem medo de ser feliz. É um dos mais reprisados na sessão da tarde e não pode existir diversão mais inocente e descomprometida do que essa. O filme é de 1980 e eu nunca tinha visto, acredita??

Sempre dei ouvidos às críticas que falam que é fantasioso, fake, bobinho, etc. etc, etc... Mas hoje, joguei todas essas análises para o alto e vi o filme todinho, do começo ao fim. Ele é mesmo bobinho, falso, etc... Mas como é lindo aquele casal! Como é linda aquela suposta ilha paradisíaca! Como é fantástica a vida que eles levam ali! Comida farta, sol, mar, o Richard e aquela sua habilidade inacreditável de construir um palacete em plena praia... tudo mais que perfeito.

Eu também gosto de assistir aquele programa Largados e Pelados e o contraste não pode ser mais absoluto. Acho ambos um exagero. Tanto o filminho água com açúcar dos anos 80 quanto o "reality" show de hoje.

Tudo isso me leva a crer que boa mesmo é a minha vida de semi-aposentada de hoje: sem dinheiro na conta, mas esbanjando qualidade de vida. Posso até me dar ao luxo de ver a sessão da tarde de vez em quando!

sábado, março 04, 2017

Meu filho primogênito


Um homem: é emocionante quando a gente constata que o filho cresceu e está prestes a completar 34 anos. Ele me tornou mãe e me deu o meu melhor papel nesta vida, o de mãe. Dar à luz, criar uma vida, isso é fantástico. Se eu não tivesse feito mais nada nesta vida, apenas o fato de ter gerado o meu filho já bastaria para dar significado à minha existência.

Meu bebê, meu menino, meu filho, meu arquiteto número 2 (o pai dele é o número 1). O tempo foi passando e me revelando este homem que eu tenho aqui na minha convivência: um homem sensível, que tem os valores mais preciosos que se pode querer, um homem do bem, um pai incrível e amado, um filho dedicado e amoroso, um irmão com quem se pode contar, um neto carinhoso e atencioso.

Tenho muito orgulho desse meu lindo menino. Lembro dos seus cachinhos dourados, do seu sorriso (não muito constante, mas sempre sincero), do seu primeiro par de óculos de armação vermelha, do sapato de verniz preto, do skate que chegou com toda a parafernália correspondente (joelheira, cotoveleira, capacete). Ele ainda era muito pequeno para ganhar skate. Mas ganhou assim mesmo.

Entendo porque as mães se recusam a enxergar os filhos como homens feitos. Elas sempre se recordam daquele bebê indefeso que dependia delas para tudo. Mas o exercício de enxergar este homem crescido é necessário e saudável. Hoje, na véspera do aniversário dele de 34 anos, me descubro emocionada em registrar a sua trajetória nesta vida. Ele prefere ter poucos e excelentes amigos. Não é de muita conversa. Mas não duvido um pingo do seu bom caráter e do seu amor pela vida e pelas pessoas mais próximas. Me sinto privilegiada e agradeço por poder conviver com ele quase todos os dias e já sinto saudades desse tempo.

Desejo zilhões de felicidades para ele, que ele realize todos os seus desejos e sonhos. Vibro com o seu sucesso e quero que ele seja exageradamente feliz ao lado de quem ele ama. Eu e meu colo estaremos sempre prontos a recebê-lo, toda vez que ele precisar.

I love you, Tom! 

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

Falta



Os leitores do "Consulta" são brindados hoje com mais um texto sensível e delicado da minha querida e talentosa amiga Luciana Praxedes. Delicie-se! 

Ela segue muito bem com a vida quando ele não está. Não morre, não faz greve de fome, não permanece letárgica no sofá. Ela se empenha no trabalho e quando chega o domingo, ela ainda está viva. Tem praia, tem cinema, tem Netflix. Mas surge um sentimento de ausência, uns buracos no meio dos dias. É porque falta o cheiro dele, falta o som do sorriso dele. Falta... Ainda assim ela não morre e continua em atividade, superando os “perrengues” da vida. Só que intimamente percebe: ela se ajeita melhor perto dele.

Mesmo quando ele não está ela continua distribuindo sorrisos e rindo de si mesma. E ri dos outros também. A vida continua sendo boa ainda que ele não esteja por perto. Ela continua a ler os mesmos jornais e se esforça para não faltar na academia. Ela não se arrasta pelos cantos. Sente fome, tem sede e adora achar motivo para ficar à toa naquele bar. Mas como seria bom ter a companhia dele, dando conta da garrafa de vinho e segurando a mão dela. Ter o ombro dele para se encostar.

Ela não enfraquece, não esmorece quando ele não está. Permanece fazendo planos, economizando grana para a viagem de volta ao mundo. Só que tudo isso se dissipa se ele surge no horizonte. As pernas dela ficam bambas, o coração entra em descompaso, as mãos formigam, o rosto parece incendiar e as palavras desaparecem. A vida ganha mais sentido quando ele está. Porque é do lado dela que ele deveria permanecer. Ficar.

Ele nunca esteve ou fez parte dos planos dela, nunca foi uma meta a ser perseguida, mas o inesperado o trouxe para ela. E entre trancos e barrancos eles construíram algo. Ela continua atenta para não invadir o espaço alheio e para não cobrar o que ele não pode oferecer. Não faz perguntas para respostas que ele não tem. Então ela segue sua jornada, com algum medo e carregada de dúvidas. Muitas vezes com a sensação de se equilibrar na corda bamba. Mas bem ou mal ela decidiu deixar ele entrar. Ela não quis resistir e abriu todas as portas e escancarou as janelas. Percebeu que seria melhor colecionar memórias e lembranças ao invés de não tê-las.

Ela não culpa ele ou ninguém mais por este ou aquele desfecho. Ela apenas sente falta dele. Muita falta. Mas ao mesmo tempo sabe que é preciso varrer as folhas mortas, acalmar as lágrimas e não esperar por nenhuma justificativa ou gesto romântico de amor. Ela aprendeu a aceitar. Compreendeu que sente falta de tudo que emana dele. E terá que viver assim por muito tempo. Mas isso não a impede de dar passos largos em direção ao futuro. Ela sabe que irá continuar sentindo a ausência dele. Dos sonhos que poderiam ter concretizado juntos. Ficará o silêncio. Aquele buraco.


Luciana Praxedes

Santos, 15 de fevereiro de 2017

sexta-feira, janeiro 13, 2017

Olho mágico 2


O texto da minha linda colaboradora Luciana Praxedes publicado ontem me inspirou a contar o outro lado da história. E o texto que saiu foi este:

(ou... Por que a grama do vizinho é sempre mais verde??) 

A rotina do café da manhã dela era preguiçosa. Ele sempre acordava antes. Como ela precisava tomar o remédio do hipotireoidismo, esperava meia hora antes de comer. Nesse meio tempo, ele se adiantava e deixava tudo pronto. Era uma maneira de “se mostrar”: “olha que ótimo marido eu sou! Até deixo o café da manhã dela preparado todas as manhãs”. Era o que ele sempre repetia para os amigos do clube. Ela estava cansada daquele mimo todo. Por exemplo: ela preferia leite desnatado, mas ele insistia que o integral era melhor para a saúde. E ai dela se reclamasse. Nesses casos, ele nunca discutia. Apenas emburrava e se fechava em seu mundinho, onde ninguém tinha permissão de entrar. Ela simplesmente não suportava o silêncio dele.

Feliz mesmo era a moça solteira do apartamento ao lado, que ela sempre observava pelo olho mágico. Saia toda produzida e perfumada para o trabalho, todas as manhãs. Certamente deveria ter um cargo bem alto, pois ela sabia reconhecer suas bolsas de grife e seus óculos de sol que com certeza não vinham de um camelô... E na casa dela não tinha aquele silêncio mortal. Lá sempre rolava uma música tocando baixinho. Um jazz, uma bossa nova, uma MPB, tudo de bom gosto. O marido dela não curtia música. Preferia ver notícias ou esportes na TV.

Isso sem falar no carinho que aquele gatinho fofo tinha pela vizinha. Ela sempre amou os animais de estimação. Sobretudo os gatos. Mas o marido dizia que eram animais traiçoeiros e ainda por cima tinha alergia. Ou seja, ela jamais pode ter um gatinho no apartamento. A vizinha, no entanto, tinha sempre a companhia daquele animalzinho fofo, que nunca reclamava de nada, fazia as necessidades no lugar certo e estava sempre pronto a um afago, um cafuné.

Todos os dias, depois do café da manhã, o marido a pegava pela mão e levava para a mesa do escritório, onde tinham que conferir uma a uma todas as notas fiscais do dia anterior. Ela era obrigada a justificar cada centavo gasto e era o momento do dia de que ela menos gostava. Era uma verdadeira tortura. O marido, Capricórnio com ascendente em Touro, não aceitava nenhum gasto que não fosse planejado antes. Ela ainda tinha bem vivo na memória aquele scapin vermelho, que ela decidiu comprar num impulso, quando viu na liquidação, apostando que o marido ia achar sexy. Não teve choro nem vela. Ela precisou devolver com uma desculpa esfarrapada qualquer, e pegar o dinheiro de volta.

Mas o que mais a irritava era aquela xícara lilás, que era para ter sido da mãe dele. Tinha sido comprada por ele em Paris, para dar de presente à sogra, quando ainda estavam bem de vida. Porém, ao chegarem ao Brasil, a mãe dele teve um infarto fulminante e morreu. Ele achou por bem dar à esposa a tal caneca lilás. Se ela pudesse escolher, não usaria aquela triste xícara. Mas discordar do marido era ter de conviver com o homem emburrado. Então, ela achava melhor aquiescer.

Feliz era a vizinha. Que podia escolher a xícara que quisesse, sair e voltar no horário que bem entendesse, ouvir a música que escolhesse, na hora em que estivesse a fim. Sim... a liberdade não tem preço, pensava ela, enquanto lavava a louça e lembrava daquele lindo scarpin vermelho... 


quinta-feira, janeiro 12, 2017

Olho mágico


Mais uma vez tenho a honra de publicar o primeiro texto de 2017, de autoria inspirada da minha querida amiga Luciana Praxedes. 

Por aquele pequeno orifício, ela passou a observar uma vida que não era a dela, mas que desejava imensamente que fosse. A dinâmica daquele casal, meramente comum, igual a tantos outros, era a declaração mais latente de que a felicidade acontece em gestos singelos ou no silêncio de um olhar. Não há palavras, sentenças ou conversas matinais. Apenas uma rotina permeada pelo amor, pela reciprocidade, pelo bem-querer.

Espreitar a dinâmica daquele casal passou a ser o esporte favorito daquela mulher balzaquiana, uma típica leonina com ascendente em Escorpião e lua em Câncer. Ela prestava atenção aos detalhes que a pressa, a  confusão do cotidiano, insistem em camuflar. Todos os dias aquele moço alto de cabelos levemente grisalhos acordava mais cedo para preparar o café ao mesmo tempo em que folheava a página de Esportes de um jornal qualquer. Era uma ação cotidiana, quase automática, mas que revelava uma gentiliza sutil: o café pronto, quentinho, era despejado na xícara lilás, acompanhada de duas fatias de pão integral com manteiga sem sal. E uma fruta! Sim, a fruta dela delicadamente cortada em cubinhos simétricos.

Pontualmente às 7h12 a dona deste desjejum aproximava-se, sentava na cadeira posicionada na cabeceira da mesa e lançava um olhar preguiçoso para ele, que interpretava este gesto como um obrigada. Ao devolver o olhar ele também respondia: de nada, coma tudo. Esta cena trivial enchia o coração da observadora, que pulava o café da manhã por preguiça de prepará-lo. Morar sozinha tem lá suas vantagens, mas a principal desvantagem é não ter ninguém para fazer o seu café da manhã. Nem sempre foi assim, mas ao perceber que preferia um amor amigo ao sexo quente eliminou o desjejum dos seus hábitos alimentares.

O homem enche mais uma xícara de café e senta-se ao lado dela. Coloca sua mão na coxa direita da moça e morde o pão pulmann besuntado de geléia de amora. Ela retribui o carinho e repousa sua mão em cima da dele. Eles se olham. Não emitem nenhum som, nenhuma palavra. Não que fossem necessárias. Neste momento, uma lágrima escorre pelo rosto daquela que permanecia à espreita. Desejou, com toda a força do seu ser, que alguém segurasse em sua mão, que alguém se importasse. Leonel, seu gato siamês, ao perceber que ela chorava, enrosca-se em suas pernas para provar que ela não está sozinha. Tem ele.

O casal, agora de mãos dadas, levanta-se em direção ao quarto. Ao se afastarem da mulher que tudo vê deixam um rastro de dor por tudo aquilo que aconteceu e, especialmente, pelo o que não aconteceu. Fora do alcance dos seus olhos, aquele casal faz ela recordar de um verso sobre o amor. Ou seria sobre a ausência? Não importa. O amor mora do outro lado, no apartamento vizinho, na cozinha, no café quente na xícara lilás.



Luciana Praxedes

Santos, 11 de janeiro de 2017.

quinta-feira, dezembro 22, 2016

Feliz Natal e feliz ano velho!



Bom, primeiro, vamos falar do aniversariante: Jesus. Que o Menino Jesus nasça no coração de todos, com sua doçura, sua inocência infantil, seu amor incondicional a todas as criaturas de Deus. Um cara que nasceu há mais de 2 mil anos e que deixou um Evangelho que é um fonte inesgotável de LUZ e de AMOR para esta Humanidade não pode ter sido um cara qualquer. Não é lógico pensar / sentir assim. Ele é o grande governador do nosso planeta e Ele espera que nós sejamos pessoas cada vez melhores nos anos que hão de vir.

Segundo, vamos falar deste ano velho, coitado, 2016. Essa tendência que as pessoas têm (e eu me incluo também) de só falar mal, de criticar, de lembrar das dores e das tragédias do ano que finda.... quer saber?? Não tá com nada.

Enquanto não soubermos olhar pra trás e valorizar cada uma das coisas BOAS e até ÓTIMAS que nos aconteceram (ou que fizemos acontecer, melhor assim). não poderemos seguir nosso caminho evolutivo de forma plena e feliz.

Já falei aqui que faço um pote por ano, onde vou colocando só as coisas boas que aconteceram. Já tenho vários. Enquanto as pessoas fazem conservas de doces, eu coleciono coisas boas, ano a ano.

Aconselho todo mundo a fazer o mesmo.

Não vamos simplesmente jogar fora os anos, conforme eles vão passando. É uma situação especial abrir o pote e ir retirando e revivendo os momentos bons daquele ano que vai embora.

Estamos aqui mais uma vez à beira de um ano novo, com nossos corações cheios de esperança em dias sempre melhores.

Ao invés de amaldiçoar o ano que passou, vamos agradecer por tudo que a nossa vida nos trouxe de bom.

Vamos receber 2017 de braços e coração abertos.

É isso!